“Nossas empresas têm que ser competitivas”


De olhos nos investimentos da ordem de R$60 bilhões de reais previstos para o Espírito Santo até 2021, principalmente na atividade de petróleo e gás, o Centro Capixaba de Desenvolvimento Metalmecânico (CDMEC) tem trabalhado na preparação do setor para a competitividade com vistas às novas oportunidades que deverão surgir, como a oferta de serviços e equipamentos. “Essa cadeia de petróleo e gás ela é muito ampla e falo com muita convicção: ainda não é dominada pelas empresas locais”, disse o presidente do CDMEC, Durval Vieira de Freitas. Ele conta nesta entrevista um pouco sobre a trajetória do setor metalomecânico e destaca ações em inovação e qualificação tecnológica que têm garantido sobrevivência e competitividade e a muitas empresas. O estado reúne hoje em torno de 1200 empresas nos segmentos de mineração metalurgia, papel e celulose, petróleo e gás, siderurgia, serviços e fabricantes de máquinas; setor que emprega 25 mil trabalhadores. Durval Vieira de Freitas é mineiro de Laje do Muriaé, tem 70 anos, atuou como engenheiro mecânico, foi professor universitário, trabalhou no Bamerindus Trading, BNDES, na CSN, entre outras empresas e em vários estados e países; dirige a DVF Consultoria e desde 1988 atua no ES.

“Empresas de papel e celulose hoje não fazem nenhum investimento no Brasil e na América do Sul sem que tenha uma empresa do Espírito Santo. ”


 

REVISTA SIM: O senhor disse que em 1988 ao chegar ao Espírito Santo para atuar na duplicação da Companhia Siderúrgica de Tubarão, liderando o escritório local da Cobrapi, verificou que o Estado era muito dependente de mão-de-obra e serviços, que vinham de fora, e que isso o incomodava, tanto que depois que a Cobrapi foi privatizada, o senhor foi atuar na área de consultoria, desenvolvimento de empresas e formação. Como foi isso?

Em 1993, com a ajuda da minha esposa e dos meus filhos, montamos a DVF Consultoria, trabalhando para apoiar, desenvolver empresas locais, para elas crescerem, para que elas tivessem oportunidades nas grandes empresas e fossem competentes. Nesse sentido, contamos com apoios de lideranças capixabas, que nos ajudaram muito. Tivemos muito apoio também da Secretaria de Estado do Meio Ambiente, do Sinduscon, Sindfer, do CDMEC, Sindicoopes, Sebrae, Bandes…, e através de comissões, começamos a desempenhar esse trabalho.

SIM: Como foi esse trabalho para a capacitação e valorização da empresa capixaba quando o senhor assumiu a direção do CDMEC?

Fui convidado e assumi o CDMEC- Centro Capixaba de Desenvolvimento Metal Mecânico em 1995 e passou a ser uma bandeira nossa essa valorização da empresa e do trabalhador locais. Para grande surpresa nossa, a partir de então, as oportunidades começaram a aparecer e aí nós vimos que o empresário não estava preparado. Ele não conhecia nada além dos limites da Grande Vitória e nem do Espírito Santo. No máximo, conheciam Anchieta e Aracruz. A Petrobras já existia em São Mateus, mas era pouquíssimo conhecida pelos empresários da Grande Vitória. Então, começamos a fazer reuniões com as grandes empresas e a levar empresários para feiras em São Paulo. Hoje vemos empresários milionários, e nós íamos de ônibus cedidos pelo Sebrae; eles ficavam em três, quatro num mesmo apartamento. Falar isso hoje á até estranho. Mas com isso eles abriram os olhos. No momento em que eles saíram desse universo aqui e foram para outros lugares, começaram a fazer parcerias, e ver as coisas que eles podiam fazer.

SIM: Como conquistaram esse espaço junto às grandes empresas?

Aqui tenho que registrar o apoio que as empresas grandes passaram a dar aos empresários locais. Elas viram que era um trabalho planejado, organizado e controlado e passaram a dar oportunidade. A Aracruz Celulose passou a se abrir e fazer parceria com os detentores de tecnologia. As grandes empresas viram que era preferível trabalhar com empresas pequenas, que estavam se tornando médias, a trabalhar com essas empresas que hoje estão aí na Lava Jato fazendo esse papel sujo – a Odebrecht era uma delas que só causavam aborrecimentos. Essas empresas tinham departamentos jurídicos maiores que o departamento de engenharia. Elas entravam com preço baixo, e em um mês depois entravam com pleito de reajustes. Então, nós perdíamos concorrências não por competência, mas porque elas usavam esse sistema com a gente. E a Aracruz, no final, viu que o valor saia três ou quatro vezes maior que o original, saia mais caro que o local, e ainda que ela não tratava com o dono da empresa, mas com outras pessoas.

SIM: Então, prosperaram aqueles que investiram em conhecimento, inovação, tecnologia…

Os empresários foram vendo as oportunidades, se capacitando, fazendo viagens, parcerias, e aqueles que acordaram cresceram, sobreviveram, ainda estão crescendo, melhorando e expandindo. Ao contrário, aqueles que se acomodaram, ganhando as coisas sentados, muitos foram à falência e acabaram. Também os empresários novos, que saíram da Vale, da Samarco, da Arcelor, que montaram aqui as empresas menores, foram crescendo. Especialmente da Aracruz Celulose, hoje Fibria, que foi mais quem deu oportunidade.

Algumas falas da época me marcaram muito. Uma delas foi do ex-presidente da Aracruz Celulose, Carlos Aguiar, em um evento na Federação das Indústrias: “É um sonho meu ter aqui empresas que possam atender Aracruz, evitando que venham especialistas de Curitiba ou de Atlanta para resolver problemas simples ”, disse ele. Há uns cinco anos, quando se aposentou, teve um evento e nós tivemos a oportunidade de falar para ele que esse sonho dele foi realizado. Essas empresas de papel e celulose hoje não fazem nenhum investimento no Brasil e na América do Sul sem que tenha uma empresa do Espírito Santo, e mais precisamente de Aracruz. Lembro ainda que falavam que os soldadores do Espírito Santo eram os piores do Brasil; hoje eles são os melhores, se especializaram para isso. Então, esse é o reconhecimento de todo um trabalho, de um esforço feito em conjunto.

“O nosso cenário hoje ele está bom para as empresas que têm tecnologia, para quem inovou, investiu em produtividade e competitividade. “


 

SIM: Empresas também passaram a exigir certificações, não é?

Hoje a ArcelorMittal Tubarão exige que todas as empresas que lá trabalham tenham certificado do Prodfor – Programa Integrado de Desenvolvimento e Qualificação de Fornecedores, e os trabalhadores delas tenham certificação própria. Com isso eles se tornaram mais competitivos. Então, nós garantimos esses espaços e essas empresas que investiram em conhecimento e tecnologia estão aí trabalhando. Esse é o Espírito Santo, com empresas que tem aí até 3.600 funcionários, empresas que têm aviões para facilitar a prestação de serviços para outros estados e país.

SIM: Qual é o atual panorama do setor metalmecânico capixaba?

O setor metalomecânico capixaba tem 1200 empresas, emprega 25 mil trabalhadores e responde por 17% do PIB (Produto Interno Bruto). O CDMEC foi fundado em novembro de 1988 e foi transformado agora num escritório de projetos. Eu havia sido presidente em 95/2001, e agora retornei nessa nova fase. O Espírito Santo é um mercado de 3 milhões e meio de habitantes. Ele representa mio por cento da área territorial brasileira, 1,9% da população e 2,2% do PIB. Então, nossas empresas têm que ser competitivas. Tem que trabalhar tecnologia, inovação, porque nosso mercado é limitado. Então, é dentro disso que estamos trabalhando no novo CDMEC.

SIM: Como o setor está estruturado e o que produz?

O setor atua horizontalmente na economia. Ele se divide em duas grandes partes, uma é a fabricação e a outra é serviço. Na fabricação tem a seriada e a fabricação sob encomenda. E no serviço, tem os serviços de montagem, manutenção, serviços de engenharia e gerenciamento. O setor metalomecânico capixaba está sobressaindo agora na parte da produção seriada, depois que a Weg se instalou em Linhares, além da Brametal e Metalosa. O setor é mais forte na prestação de serviço, onde é referência no Brasil, bem como na fabricação sob encomenda não pesada, em pequena e média empresa. O nosso cenário hoje ele está bom para empresas que têm tecnologia, para quem inovou, investiu em produtividade e competitividade. A gente observa muito isso, mas temos que fazer muito mais ainda.

SIM: Quais são as perspectivas do setor? 

O Espírito Santo tem até 2021 – apesar da crise econômica e política que atravessa o país – investimentos previstos da ordem de 60 bilhões de reais, sendo que 70% disso são em petróleo e gás. Para se ter uma ideia, só a Petrobras deverá investir nesse período 32 bilhões de reais no Estado, sendo 90% em serviços.

Então, o desafio continua. O que acontece é que no setor de papel e celulose as empresas locais têm um domínio muito bom. De mineração e siderurgia também. A grande dificuldade, porém, está o setor de petróleo e gás porque quem contrata não é só o investidor, que faz a exploração, é também o operador, a empresa que eles contratam para a operação, que precisamos identificar. Essa cadeia de petróleo e gás ela é muito ampla e falo com muita convicção: ela ainda não é dominada pelas empresas locais. Acho que é ainda uma caixa preta que precisamos abrir e conversar mais sobre isso. Temos ainda muito pouco diálogo com o setor de petróleo e gás. Isso tem que ser ampliado. Não se pode ter aqui 32 bilhões de investimentos da Petrobras e só meia dúzia de pessoas e empresas no estado ter conhecimento. Essa cultura tem que ser divulgada em todos os setores. Empresas, e escolas. Porque esse valor não é só do metalomecânico, porque o setor de petróleo e gás ele contrata transporte, alimento, uniforme, farmácia, gráfica, imprensa, etc., e a gente não sabe onde está isso.

SIM: Que ação do CDMEC o senhor destacaria no sentido de potencializar o desenvolvimento capixaba? 

O CDMEC está trabalhando muito fortemente em serviço. Temos a Mec Show que vai ocorrer agora entre 18 e 20 de julho. Será uma Mec Show internacional. Estamos trazendo empresas da Colômbia, Canadá, Argentina, México e da rede petro de diversos estados brasileiros para conhecer o Espírito Santo. O ES é o segundo maior produtor de petróleo e gás do Brasil, com capacidade aí de quase 400 mil barris por dia de petróleo, além de gás, e isso é muito pouco divulgado.

Tem uma coisa que acho uma deficiência do capixaba: a gente se mostra pouco. E somos muito bons. Fazemos eventos aqui e o pessoal que vem de fora nunca apresenta o que temos e nós temos muita coisa boa. Temos aqui um grande número de empresas que são referências e que não está vivendo crise neste estado; poucos falam isso, agora a gente fica vendo que o que é bom vem de fora. Precisamos ter mais orgulho de ser capixaba.

Entrevista Durval Vieira de Freitas – por Bartolomeu Boeno | Revista SIM nº 101 – ano XI Junho/2017