Independência e Inovação

Dados de pesquisas realizadas por professores de inovação da Universidade de St. Gallen, na Suíça, sugerem que empresas que realmente almejam inovar devem estruturar unidades de negócio separadas. Foram analisadas mais de 55 empresas e em todas, o fator considerado fundamental para o crescimento foi o investimento em inovação e novos modelos de negócio.

Investir no novo exige um esforço significativo e a agenda de gestão da mudança é relevante. Um dos principais valores para estas novas empresas é a liberdade para a criação de novos produtos, serviços e tecnologias completamente desvinculadas do negócio original. Para tanto, é preciso ter gente competente, liberdade para alocação de recursos e o comprometimento da liderança com o longo prazo.

Nas pesquisas dos professores da Universidade de St. Gallen vários estudos de caso de diversos setores da economia mundial são relatados. Alguns exemplos são muito instigantes.

Durante muitos anos, o principal produto da Bosch foi uma unidade de propulsão de motores. Dados os avanços da tecnologia e automação veicular, a empresa se viu em uma encruzilhada. Vendas caindo, margens menores, redução de custos, concorrentes crescendo e incertezas quanto ao futuro. O caminho tradicional poderia ser a continuidade da produção e novos mercados. A decisão foi a princípio inusitada. Criar uma nova empresa focada em softwares. A Bosch Engineering nasceu com 10 funcionários, sendo independente e hoje é a maior responsável pelo crescimento da Bosch centenária.

Nada muito diferente para a Microsoft. Durante muitos anos, a empresa do Vale do Silício foi líder mundial na venda de softwares. Seu modelo foi centrado na compra de pacotes individuais e corporativos. No entanto, startups perceberam que a demanda dos clientes seria por produtos por assinatura. Para sobreviver as mudanças do mercado, a primeira iniciativa foi ter um grupo de engenheiros trabalhando em um prédio separado, com orçamento dedicado e propósito transformador. Nascia então o Hotmail, primeiro serviço on-line de e-mail, originando várias outras inovações nestes últimos anos.

No Brasil, um caso recente é o da Embraer. Premiada constantemente como a empresa mais inovadora do Brasil, com bons resultados financeiros, atuação internacional e uma equipe altamente capacitada, a empresa vem enfrentando desafios. Além da concorrência com a Airbus e Boeing, fabricantes tradicionais de aviões e maiores do que a própria Embraer, os desafios de mobilidade são gigantescos. Para tanto, foi criada uma nova unidade de negócios nos Estados Unidos, cujo desafio é fazer parcerias com universidades, investir em novas tecnologias e em veículos autônomos.

Tantos outros exemplos poderiam ser citados. O fundamental é a coragem para a mudança, em assumir riscos, investir em inovação e na busca pelo novo. A agenda diária das empresas é muito operacional, focada em números e em rotinas desgastantes. Sem a ousadia pela gestão da mudança, tem-se o risco da descontinuidade.

Finalmente, a independência da inovação é entender o processo de mudança do mercado, das demandas dos clientes e em romper com modelos estabelecidos. Além das tradicionais técnicas de gestão pautadas em resultado, esta independência associa-se ao questionamento saudável por novas experiências, rumos e crescimento exponencial. Estudos de caso e dados disponíveis a respeito não faltam para tanto.

Extraído de: https://goo.gl/DVoJM5
Escrito por Hugo Tadeu, professor da FDC em 21 de agosto de 2017