O papel do Conselho de Administração no século XXI

Há um ditado que diz que contratos são desnecessários para negociar com pessoas honestas e completamente inúteis quando lidamos com as desonestas. No universo das corporações, a preocupação com mecanismos de controle vem ganhando uma importância cada vez maior.

Regras mais rígidas para a entrada e permanência em segmentos diferenciados para investidores – como a lista do Novo Mercado da Bovespa – e a crescente pressão de governos e sociedade por mais transparência foram alguns dos componentes para o crescimento das práticas de compliance e para o crescimento acelerado dos conselhos de administração e de mecanismos de governança nas empresas brasileiras.

Esse processo teve como gatilho o período de abertura econômica no Brasil e, no cenário externo, o início do processo de globalização, nos primeiros anos da década de 90. Repentinamente, as empresas nacionais viram-se forçadas a ampliar seus níveis de competitividade frente aos concorrentes externos.

Nessa abertura, emergiu o conceito de governança corporativa, cujo objetivo inicial era o de implantar modelos de gestão que tornassem as companhias capazes de gerar valor aos acionistas, sócios, investidores e demais públicos de interesse.

Nesse contexto, floresceu a figura do conselho de administração, o órgão máximo responsável pela gestão da governança. Sendo um componente obrigatório para empresas de capital aberto, hoje qualquer companhia pode optar pela criação de um conselho de administração e adotar as práticas recomendadas de governança corporativa. Temos testemunhado o crescimento do interesse pelo assunto e percebe-se um aumento na procura por programas de formação de conselheiros.

Não há dúvidas sobre a importância do conselho de administração. Sua função de definir diretrizes e profissionalizar a empresa, ao monitorar o seu desempenho, aprovar suas demonstrações financeiras e fazer planos para enfrentar possíveis riscos, marcou a era da gestão orientada para um grande objetivo: os resultados financeiros.

Mas o cenário vem mudando. O mundo e as organizações vêm passando por profundas transformações e com grande velocidade. O conceito de lucro a qualquer preço perde força nas companhias e nas lideranças empresariais. Sustentabilidade do negócio e legado de gestão para a sociedade, agora, são resultados tão ou mais importantes que a entrega de resultados financeiros.

Neste ambiente de volatilidade e incertezas, surgem as provocações: o modelo do conselho de administração, forjado no final do século passado, está apto a ir além da entrega de resultados financeiros aos acionistas? Os conselhos de administração aprisionados na mentalidade do século 20 serão capazes de orientar as organizações para navegarem neste novo mundo, em que a reputação e o legado social são valores intangíveis inegociáveis pela sociedade?

Exemplos recentes sugerem um descompasso entre o papel dos conselhos de administração e esses novos desafios impostos ao mundo dos negócios. Que o digam os recentes escândalos de corrupção descobertos pela operação Lava-Jato que desnudou uma relação de promiscuidade entre agentes públicos e algumas das maiores organizações privadas do Brasil.

O tempo é de reflexão e revisão do papel do conselheiro de administração das companhias. Por muito tempo, ele foi visto como um fiscalizador, pressionando a empresa a entregar resultados financeiros para aplacar a cobrança dos acionistas.

O conselho de administração do século XXI precisa ampliar esse paradigma e ir além. A mentalidade de lucro a qualquer preço já se provou insustentável e o conselheiro que permanecer atado a esse modelo corre o risco de conduzir sua organização por caminhos tortuosos e de destino curto.

Acompanhamos essa realidade diariamente na Fundação Dom Cabral (FDC), em nosso Programa de Desenvolvimento de Conselheiros (PDC), iniciativa voltada para a preparação do exercício pleno e eficaz da função. Um número cada vez maior de executivos procura nossa escola de negócios, ao ser convocado a exercer essa atividade de extrema responsabilidade. E, muitas vezes, ainda com um foco exclusivo na geração de lucro para o grupo de acionistas.

Não há dúvida de que passamos por um cenário de incertezas econômicas e políticas. É tentador, nesse ambiente de turbulência, fiar-se em práticas e caminhos já conhecidos, sem grandes mudanças, mas, sem essa análise crítica do papel do conselho de administração na organização, assistiremos a um aprofundamento cada vez maior do fosso entre entrega de resultados financeiros e sustentabilidade do negócio. Um futuro onde contratos e normas terão mais importância do que a real preocupação com o legado das organizações.

Para saber mais sobre o Programa de Desenvolvimento de Conselheiros (PDC), clique aqui​.

Publicado por Fundação Dom Cabral em 09/05/2017  em “Governança Corporativa” – por Antonio Batista da Silva Junior, presidente executivo da Fundação Dom Cabral