Os mercados nos quais as empresas operam estão cada vez mais complexos e dinâmicos, limitando a capacidade da alta administração (presidentes, CEOs, diretores, etc.) em tomar decisões. Por isso, os indivíduos da média gerência são agentes fundamentais para a formulação e implementação de estratégias.

Os indivíduos da média gerência são aqueles que atuam como “pinos de ligação” entre grupos de superiores e subordinados no organograma da empresa, coordenando as atividades do topo e operações. Geralmente, essas pessoas operam a 2 ou 3 níveis abaixo da presidência, recebem grandes responsabilidades e possuem tanto o acesso à alta administração como alto conhecimento das operações.

Neste artigo, apresentamos 5 explicações sobre por que a estratégia depende da média gerência, refletindo sobre maneiras de estimular a atuação estratégica destes gestores.

  1. A média gerência direciona o intraempreendedorismo: Você acha que o orçamento e os investimentos de capital nas empresas são conduzidos pela alta administração, com base em aspectos técnicos e financeiros? Pois saiba que tais decisões de investimento são bastante influenciadas pelos indivíduos da média gerência. Tais gestores identificam oportunidades e definem as características das propostas de capital que fazem aumentar suas chances de serem aceitas, pois eles conhecem bem os critérios de avaliação. Logo, em boa parte das vezes, a alta administração não escolhe entre as alternativas de investimento. Pelo contrário, apenas orienta a tomada de decisão e comunica à média gerência os objetivos corporativos e parâmetros para a aprovação de projetos.
  2. A média gerência pode sabotar a implementação: Interesses pessoais da média gerência podem motivar suas intervenções de duas principais maneiras na estratégia: tomando partido em relação às alternativas que estão sendo consideradas, ou resistindo às decisões que foram feitas. Com isso, tais indivíduos tendem não apenas a piorar a qualidade e gerar atrasos na estratégia, como podem, eventualmente, sabotar por completo a sua implementação.
  3. A média gerência é determinante para o desempenho da empresa: A média gerência pode demonstrar envolvimento na estratégia de várias maneiras. Por exemplo, quando busca sintetizar informações, interpretando, avaliando e transmitindo para a alta administração dados e acontecimentos internos e externos à empresa e que possuem impacto sobre a sua estratégia. Por outro lado, tal envolvimento ocorre quando esses indivíduos são capazes de facilitar a adaptação, promovendo na empresa arranjos flexíveis em favor da estratégia, experimentando e desenvolvendo de maneira criativa novas atividades de trabalho que vão além das expectativas formais. Existem evidências comprovando que as empresas com melhor desempenho são aquelas nas quais tais comportamentos são mais observados em indivíduos da média gerência.
  4. A média gerência vende ideias para as pessoas: A média gerência também se envolve na estratégia por meio de uma dinâmica de venda de ideias: persuadindo e chamando a atenção das pessoas para a compreensão de eventos, desenvolvimentos e tendências que podem afetar o futuro da empresa. Em tal lógica, as empresas representam um “mercado” fértil de ideias, no qual questões são “vendidas” pela média gerência e “compradas” pela alta administração, que define a estratégia. Os indivíduos da média gerência são centrais nesse contexto, pois são eles quem possuem suas mãos nos processos e estão mais próximos de clientes e outras partes interessadas. Logo, eles possuem conhecimento sobre quais questões estratégicas merecem maior ou menor atenção das pessoas.
  5. A média gerência atribui significados e lida com emoções relacionadas à estratégia: Você já imaginou que as emoções da média gerência podem influenciar a estratégia? Isso acontece porque tais gestores equilibram as emoções durante mudanças radicais enfrentadas pelas empresas, seja acolhendo as demandas por continuidade das pessoas, ou demonstrando comprometimento passional com iniciativas individuais, ajudando, assim, na adaptação de grupos.

Tais gestores também conduzem conversas e negociações informais com seus pares para chegar a um acordo sobre mudanças necessárias à organização. Dessa forma, a média gerência ajuda na construção de significados relacionados a mudanças planejadas, contribuindo para o alcance de resultados estratégicos que foram, ou não, pretendidos.

Cabe salientar que todo esse protagonismo na estratégia depositado sobre a média gerência depende da maneira pela qual tais gestores se relacionam com membros da alta administração. Ou seja, assim como existem expectativas relacionadas à papéis da média gerência, a alta administração também precisa se engajar em comportamentos particulares. Por exemplo, ratificar iniciativas, arbitrando entre ideias que surgem na empresa; dirigir a alocação de recursos, por meio de comprometimentos estratégicos claros, e reconhecer atividades de mudança, demonstrando abertura quando as circunstâncias demandam alterações na estrutura ou na estratégia.

Por Samir Lótfi – Prof. do Núcleo de Estratégia e Negócios Internacionais da FDC, doutorando em administração pela FGV-EAESP e mestre em administração pela USP.

Extraído: LinkedIn – Fundação Dom Cabral https://goo.gl/9ddHtB